a mulher é existencial.
O coração da mulher anseia por explicações, por sentido, por algo grandioso.
Cada alma é única, cada mulher também.
O padrão muitas vezes serve para nos nortear, mas também tem o poder de nos esmagar e tirar nossa liberdade e autenticidade.
Inúmeras vezes essas situações se esbarram e se misturam, exigindo que tenhamos discernimento para que elas possam ficar cada qual em seu lugar.
No que tange a mulher - ao feminino - essa realidade é cristalina.
Ao nos depararmos, hoje, com o que o mundo nos oferta - a nós mulheres - nos deparamos com uma realidade que nos sufoca. O filme mais recente da boneca de nossa infância nos mostrou isso: o quanto as mulheres se sentem pressionadas e querem liberdade.
Essa pressão é justamente fruto dessa simbiose entre o norte e o que desejam que sejamos. E ambos os sentidos estão embotados. Não temos mais um norte claro para olharmos e estamos transbordadas de pequenos manuais de como ser uma mulher moderna.
Algumas dizem que devemos ser submissas ao ponto de nos anular.
Outras dizem que somos superiores.
Outras dizem que devemos eliminar tudo aquilo que impede a mulher de fazer o que ela quiser... dentre outras inúmeras cartilhas que existem por aí.
Existem cartilhas religiosas, inclusive, que colocam a mulher num quadradinho.
Outras cartilhas colocam a mulher como deusa, detentora de toda a sabedoria ancestral e mística, renegada pelos homens e silenciada pelo cristianismo!
Exaltam um "poder sobrenatural" da mulher.
Ou seja, no fim da contas, existem várias formas de "ser mulher", mas sempre enraizado numa narrativa de ressentimento, de dor e de uma busca por um transcendente.
Isso não é curioso?
É como se a mulher soubesse que de fato há um "algo a mais" dentro dela, uma vocação além dessas estruturas mundanas.
Mesmo que algumas rejeitem essa teoria, o comportamento sempre acaba como que numa estrutura de religião, de misticismo, de uma tentativa de colocar algo acima.
De modo especial o século passado e estes nossos tempos nos coloca nessa realidade de forma extremamente palpável. Movimentos e mais movimentos surgem para nos guiar, dizendo o que seria o melhor para nós, utilizando de dores e sofrimentos comuns da natureza feminina.
Mas existe algo em comum a todos eles: eles rejeitam aquilo que o cristianismo fala da mulher e sua identidade.
Isso se dá devido às propagandas contrárias à Igreja, advindas de diversas partes: ressentimentos, incompreensões, falta de acolhimento, contratestemunhos e a própria história com suas camadas de díficil compreensão.
E é nessa dificuldade que se abre a brecha para que a mulher tente encontrar sua identidade fora dos muros da Igreja, afinal de contas, o sentimento de não pertença e até mesmo de desvalorização começou a ser muito mais predominante, e as respostas para dificuldades um tanto mais sociais não eram encontradas nas orações.
Mas o que acontece é que o barulho para provar que a natureza humana é maior e melhor que Deus foi pavimentada lá atrás quando a modernidade começou a acreditar que o homem poderia ocupar o lugar Dele - também chegou ao coração feminino.
Não seria possível colocar aqui todo um contexto antropológico devido a extensão de nossa história - e o escasso conhecimento técnico que tenho. Também não é o objetivo desse texto menosprezar medidas necessárias à segurança da mulher - mas o que quero dizer com toda essa "introdução" é que antes o sofrimento feminino tinha seu consolo e seu significado em Deus, e creio eu que, a partir de uma industrialização da sociedade, isso foi se perdendo devido aos novos anseios civilizacionais. A tecnologia também contribuiu para que a percepção de uma dependência divina fosse diminuída e assim o homem (e a mulher) seria capaz de resolver seus problemas por si mesmos.
E assim foi.
De fato houve essas tentativas e elas ainda existem, mas está mais do que claro que sempre acaba chegando numa barreira na qual não conseguem passar.
Algumas por orgulho dizem que essa barreira não existe ou não importa, outras se calam para não ter de lidar com algo que não compreendem ou para não perder privilégios - ou mesmo por medo - outras sentem que há algo que as chamam para além do que existe aqui nessa terra e tentam se conectar com isso de diversas formas.
É uma sede feminina por sua real identidade.
Perdida? Embaçada? Nunca compreendida? Silenciada?
Não sei...
Mas sei que a quantidade de teorias sobre o que é ser mulher ou como "tornar-se" uma são insuficientes.
E essa minha certeza se dá justamente por ter observado - não aderido - a esses manuais ideológicos. Observado bem de dentro, inclusive. Cercada por meninas/mulheres que não viam mais a necessidade de um Deus, onde tudo era visto como amarras impedindo o verdadeiro ser feminino de se mostrar e ganhar notoriedade.
Acontece que tudo isso pode até ter alguma relevância, mas continua deixando um buraco no coração feminino. E nesse buraco muitas outras coisas se instalam.
O coração da mulher anseia por explicações, por sentido, por algo grandioso.
Infelizmente, muitas vezes ele é cooptado para coisas grandiosas, sim, mas com poder destrutivo imenso.
Digo isso pois, sejamos sinceras, a mulher tem uma capacidade imensa de destruição.
Ela não é bélica.
Ela é existencial.
E justamente por causa dessa capacidade, creio firmemente que cada vez mais as mulheres são manipuladas - pela política, pelo capital, pelo mercado...
Enquanto não resolvermos essa ferida aberta num ato de olhar a si mesmas interiormente e contínuamente, outros continuarão explorando nossas dores e trazendo soluções a elas que, no fim, não resolvem nada, mas geram muito capital político, ideológico e financeiro.
Toda essa tentativa de salvar a mulher e trazer sua verdadeira identidade desprezando o passado e o presente cristão e colocando uma visão ateia, só tem trazido mais e mais problemas, controvérsias e uma enorme bola de neve cheia de narrativas uma tentando corrigir a outra, sem qualquer tipo de verdadeiro respeito pela dignidade da mulher.
Providencialmente, hoje, 8 de março de 2026 é um domingo, e na liturgia dominical deste terceiro domingo da Quaresma o evangelho relata o encontro de Jesus com a Samaritana, no poço de Jacó - Evangelho de João, capítulo 4.
A Samaritana, uma "judia idólatra", ou seja, pagã, se encontra com Jesus, um rabino, um homem judeu. Jesus se dirige a essa mulher, conversa, e conversa de forma profunda, falando do transcendente com ela. Ela se espanta pois não é algo legítimo de se fazer de acordo com as regras da época.
E aqui já quero pontuar algo: Jesus "quebra" essa regra não como um rebelde, mas como alguém que ama de verdade e sabe a dignidade da mulher. Sabe que a mulher tem uma verdadeira força - afinal, Ele próprio nasceu de uma, virgem, diga-se de passagem - sabe de sua natureza complexa e profunda e em vez de reforçar uma cultura social negativa, Ele purifica tal regra e se dirige à essa mulher.
É preciso notar algo extremamente importante: nos momentos chave da vida de Cristo, quem sempre estava como protagonista era uma mulher!
Anunciação, visitação à Isabel e o reconhecimento do Fruto no ventre de Maria, Bodas de Caná, crucificação e ressurreição.
Isso já nos diz muito! Nos diz o quanto Cristo valoriza a mulher e também nos diz onde é o nosso lugar!
Sim, esse é o nosso lugar. Com Cristo.
Todos os outros lugares que nos colocamos sem Ele apenas nos levaram a becos sem saída.
A nossa sede não foi saciada. É um "quero mais" infinito.
"13 Respondeu Jesus: "Todo aquele que bebe desta água terá sede de novo."
Mas no evangelho de hoje, Jesus diz que Ele próprio é a água viva que sacia toda sede, e quem bebe desta água não terá mais sede. E a Samaritana se enche de esperança ao ouvir isso!
"14 Mas quem beber da água que eu lhe darei, esse nunca mais terá sede. E a água que eu lhe der se tornará nele uma fonte de água que jorra para a vida eterna". 15 A mulher disse a Jesus: "Senhor, dá-me dessa água, para que eu não tenha mais sede [...]"
E em seguida Ele pede para que ela chame o marido dela, e ela responde negando que tenha um marido. Jesus afirma que ela diz bem, pois realmente o que ela tem hoje por marido, não é dela.
A interpretação para esse trecho se refere aos ídolos pagãos dos quais ela cultuava, porém, eu quero ir mais além aqui, trazer esse trecho para o assunto em questão.
Esses "maridos/ídolos" hoje, para as mulheres, são todos esses movimentos que dizem que vão nos libertar, que vão nos tirar das correntes que nos escravizavam - se referindo ao cristianismo, de modo geral.
E apesar dessa atitude das mulheres, Cristo insiste em se aproximar - não para julgá-las, mas para convidá-las a retornar ao seu verdadeiro lugar.
Um lugar mais elevado e pleno, onde tudo encontra sentido: Ele mesmo.
"16 Disse-lhe Jesus: "Vai chamar teu marido e volta aqui". 17 A mulher respondeu: "Eu não tenho marido". Jesus disse: "Disseste bem, que não tens marido, 18 pois tiveste cinco maridos, e o que tens agora não é o teu marido. Nisso falaste a verdade". 19 A mulher disse a Jesus: "Senhor, vejo que és um profeta! 20 Os nossos pais adoraram neste monte mas vós dizeis que em Jerusalém é que se deve adorar". 21 Disse-lhe Jesus: "Acredita-me, mulher: está chegando a hora em que nem neste monte, nem em Jerusalém adorareis o Pai. 22 Vós adorais o que não conheceis. [...]"
De fato, adoramos teorias de todas as espécies sobre o feminino, sobre o que vai nos "libertar", mas só existe um caminho.
"23 Mas está chegando a hora, e é agora, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e verdade. De fato, estes são os adoradores que o Pai procura. 24 Deus é espírito e aqueles que o adoram devem adorá-lo em espírito e verdade". 25 A mulher disse a Jesus: "Sei que o Messias (que se chama Cristo) vai chegar. Quando ele vier, vai nos fazer conhecer todas as coisas". 26 Disse-lhe Jesus: "Sou eu, que estou falando contigo". "
E quando eu disse que a mulher tem o poder de influência na esfera existencial para o mal não falei que ela também tem para o bem, e é aqui que fica isso fica evidente. A Samaritana poderia muito bem ter recusado as Palavras de Cristo, nos mesmos moldes de Eva lá no Éden, mas ela foi até a cidade e anunciou que o homem que falou com ela poderia ser o Messias.
Uma pequena redenção na pessoa da mulher samaritana.
E até aqui, espero que eu esteja sendo como a Samaritana e todas as outras mulheres que anunciaram Cristo para outras irmãs.
"28 Então a mulher deixou o seu cântaro e foi à cidade, dizendo ao povo: 29 "Vinde ver um homem que me disse tudo o que eu fiz. Será que ele não é o Cristo?" 30 O povo saiu da cidade e foi ao encontro de Jesus."
Mas tudo isso, ainda, não explica algumas outras coisas, pois é difícil entender nosso papel diante dessa travessia no caminho com Cristo.
Lembra quando eu falei que nos momentos mais importantes da vida de Cristo havia uma mulher presente protagonizando o momento e mencionei a crucificação? Pois bem, elas são a Virgem Maria e Maria Madalena.
Maria Madalena podemos dizer que de um certo modo, desesperou.
A Virgem Maria, não.
A Senhora das Dores sofreu mas permaneceu fiel. Permaneceu esperançosa no meio da incerteza e da aparente derrota.
Enquanto tentamos lidar com nossos sofrimentos na base de políticas públicas, passeatas, manifestos e semelhantes, não encontramos nenhum consolo para o nosso coração chagado, pois sabemos que essa é uma luta perdida - mas não que não deva ser lutada.
E é apenas no colo da Mãe das Dores que encontramos o sentido para o viver dessas nossas dores.
Ela que sofreu ao ver seu filho torturado e morto, e ainda assim, não desesperou.
Ela não se tornou uma mulher ressentida, nem vingativa. Ela foi prudente, calma, mas firme.
Há pouco tempo tenho visto essa simbologia da Mater Dolorosa, onde o coração da mulher pode verdadeiramente descansar pois está respaldado no Único. A Mater Dolorosa seria a mulher na qual devemos voltar nossos olhares de mulher.
Ainda não me aprofundei o suficiente e sei que há outras mulheres falando melhor disso. Mas o pouco que aprofundei, foi frutuoso.
Me fez entender até mesmo o sentido da minha consagração à Santíssima Virgem Maria.
No começo compreendi que eu necessitava (da consagração). Depois, as coisas ficaram meio turvas quanto à imagem e relacionamento com a Virgem Maria.
Agora, com essa imagem da Mater Dolorosa, consigo entender meu lugar de consagrada e de mulher: nada a ver com fitilhos e laços (apesar de amá-los!), mas sim com firmeza misturada com delicadeza, fé sem deixar razão, acreditar sem desesperar, desconfiar daquilo que não se sustenta... e rezar.
A Mater Dolorosa, pra mim, mostra uma mulher equilibrada, sincera, segura e aberta, acolhedora. Nada de ressentimentos, como já disse. Nada de ódio ou raiva. Mas equilíbrio, sensatez. E o olhar voltado para o transcendente, sabendo que é lá que o verdadeiro sagrado feminino encontra seu lugar. Aqui na terra somos redimidas; na eternidade viveremos a plenitude dessa redenção.
E ter isso nas nossas consciências deveria ser libertador. E é!
Maria mesmo em meio ao absurdo do calvário não rompe com Deus.
O que faríamos nós se estivéssemos no lugar dela, segundo manda este mundo?
Ter a imagem da Mãe dolorosa, apesar de parecer melancólica e sofrida - que de fato é - não é sobre se anular, mas sobre entender que essa vida - como já disse aqui no blog - é realmente este vale de lágrimas. É saber que depois das lágrimas vem a ressurreição, e isso ocorre todos os dias, dentro de nossas vidas, dentro de nossas rotinas, dentro de nossos relacionamentos.
É no coração da Mãe das Dores que o sofrimento humano encontra um lugar dentro da história da salvação.
Ou seja, somos chamadas a responder e aceitar a redenção de Cristo imitando a Santíssima Virgem Maria, Mãe das Dores.
Somos chamadas a deixar de lado "nossos maridos" e olhar para o Único Esposo, sermos verdadeiras esposas de Cristo.
Maria passou por coisas imensas que passam despercebidas para nós. Tendemos a achar que tudo foi fácil para ela. Mas isso não é o que a Igreja ensina, nem o que diz as Escrituras.
Banhadas no secularismo laico, respondamos a esse chamado de Cristo. Bebamos da Verdadeira água que nos saciará, continuamente. Parece contraditório, mas quanto mais bebemos dessa água divina, mais a queremos, pois é nela que encontramos nosso lugar de repouso e morada. Ela sacia, mas não impede que queiramos mais, no sentido de que nosso coração agora queima tanto de amor!
A mulher é muito mais do que cartazes, manifestações com pouca roupa (um verdadeiro desrespeito à dignidade, sejamos honestas!), slogans e todo o combo que já conhecemos.
Não nos esqueçamos que somos, também, criadas à imagem e semelhança de Deus.
Nossa dignidade não cabe neste mundo, mas este mundo precisa da nossa dignidade, e não podemos deixar que essa dignidade seja manipulada.
Nossa sede só será saciada em Cristo, não em agendas ideológicas.
Feliz dia das mulheres!
Salve Maria Santíssima!





