o convite quaresmal
“Cristo no Batismo o venceu [o pecado] na raiz, e nos colocou em condições de lutar e de vencê-lo.”
O texto a seguir são trechos retirados de uma reflexão do Cardeal Raniero Cantalamessa sobre o primeiro domingo da Quaresma a partir do livro de reflexões “o verbo se fez carne”. GRIFOS E EDIÇÕES FEITAS POR MIM.
O MISTÉRIO DO PECADO
O homem hoje se encontra nestes dois polos de atração: encontra-se no dilema de escolher entre duas solidariedades: ou com Adão ou com Cristo; ou com o pecado ou com a salvação.
O pecado acontece num jardim de delícias, na euforia do prazer, mas logo faz sentir a dor dos espinhos.
A segunda - a salvação - se realiza no deserto, isto é, na fadiga e no sofrimento, mas introduz no jardim da alegria, onde os anjos vêm servir o vencedor.
O pecado de Adão se transmite a nós com o nascimento, e com ele a concupiscência e a desordem que nos arrastam ao mal.
Mas nós não pecamos apenas porque outro pecou antes de nós (também a Escritura diz que Deus não pune nos filhos o pecado dos pais: Ez 18,20); nós também pecamos livremente, imitando Adão por nossa iniciativa.
Este inaugurou uma situação de pecado com a qual nós nos solidarizamos.
Cada pessoa acrescenta sua parte a esta espécie de fundo comum que herdou e que, por sua vez, transmite à posteridade.
É como uma enorme avalanche, da qual o pecado de Adão foi como o primeiro punhado de neve a colocar-se em movimento, mas com a qual toda a outra neve encontrada no caminho se associa.
Pecando, cada um de nós contagia e contamina, em certo sentido, o ambiente moral da humanidade, corrói valores, cria condicionamentos, tornando assim sempre mais forte a "lei do pecado" que domina no mundo.
Pode-se dizer: eu sou para aqueles que vêm depois de mim aquilo que Adão foi para mim: eu sou Adão; eu posso condicionar o futuro, fazer que os homens sejam mais escravos ou mais livres depois de mim e ao redor de mim.
Esta onda de mal e de negatividade não contagia o homem somente por via de geração, quando nasce, mas por todas as partes, através de infinitos canais e tentáculos: tradições e leis injustas, mentalidade depravada, estruturas e situações de opressão. Também os maus pensamentos poluem o ar. Aquilo que o escritor francês Albert Camus - ateu - chamou "a peste", nós cristãos o chamamos pecado.
Mas o que é realmente o pecado?
Por que Deus o detesta, a ponto de sacrificar o filho para eliminá-lo do mundo? Que mal nos causa o pecado?
Não é fácil explicá-lo ao homem de hoje, que está condicionado pelos mass-media - em primeiro lugar o cinema - a acariciá-lo, piscar-lhe com doçura e malícia.
O pecado é, em sua intenção profunda, uma tentativa de matar Deus, negá-lo como Deus, para se colocar a si mesmo em seu lugar, como valor absoluto. "Sereis como deuses", sussurrou a serpente.
Querer ser como Deus, isto é, sem ninguém acima a quem obedecer; ser dono absoluto do próprio destino e da própria liberdade: eis a intenção oculta do pecado.
Oculta a nosso espírito, mas não a Deus. Ele, aliás, a denunciou muitas vezes:
Subirei sobre as nuvens mais altas e me tornarei igual ao Altíssimo. E, entretanto, eis que foste precipitado à morada dos mortos, ao mais profundo abismo (Is 14, 14-15); o que há de superior em ti? Que é que possuis que não tenhas recebido? E, se o recebeste, por que te glorias, como se o não tivesses re-cebido? (1Cor 4,7).
Eis por que Deus deve reagir ao pecado: ele é a mentira por essência; deixá-lo correr significaria para Deus renegar-se a si mesmo.
Mas é só a Deus que o pecado ofende e ameaça, ou não é também ao homem?
É, sobretudo, ao homem.
O homem não pode existir sem este relacionamento com Deus que o sustenta na vida e no ser; rebelar-se quer dizer aniquilar-se, entregar-se ao contrassenso.
O pecado é fechamento sobre si mesmo, isto é, sobre o nada; é um perder-se:
confundidos serão todos os que vos abandonam, e de vergonha serão cobertos os que de vós se afastam (Jr 17,13).
Perda, fracasso: é a palavra-chave da Escritura para entender o pecado. Fracasso radical.
Um homem pode fracassar como esposo, como pai, como homem de negócios, como político, como mãe, se é uma mulher: há sempre uma possibilidade de recuperação.
Com o pecado se fracassa como criatura, sem apelação.
A tentação do Éden não cessou; está continuando na história.
São muitas as serpentes que sussurram ainda ao homem:
O que fazes?
Porque tu não deixas essas amarras da religião? Tu não sabes o que te espera?
Serás livre, autônomo, como Deus!
Portanto, o diálogo do paraíso terrestre é sempre atual nesta terra.
Jesus veio para que nós demos uma solução diferente:
aquela que ele deu no deserto das tentações.





