pequenos corações feridos
e a nossa responsabilidade
Assistindo a um vídeo na internet, em dado momento, de forma breve, o youtuber relembra um caso ocorrido nos anos 90: o de uma artista que rasgou a foto do Papa João Paulo II ao vivo, no programa Saturday Night Live. O nome dela era Sinéad O’Connor.
Me veio um déjà vu na cabeça e pensei: “acho que já vi isso em algum lugar…”. Puxei um pouco mais na memória e me recordei que, durante o ensino médio, no curso técnico de produção de moda, na aula de história da moda, chegamos a estudar o século XX, mais precisamente a década de 90. E assim, bem por cima, como apenas um tipo de fato curioso, a professora comentou sobre esse ocorrido e, de forma rápida, nos mostrou uma foto.
Na época, eu não liguei tanto; afinal de contas, estava completamente afastada da vida religiosa — adolescente, né?! — mas agora, anos depois, fui buscar sobre esse caso… e não poderia ter ficado menos do que com o coração partido.
Resumidamente, o ato feito por Sinéad era um protesto que, na época, muitos não compreenderam, mas que anos depois se mostrou ligado a escândalos que viriam à tona, relacionados a instituições católicas irlandesas, onde ela mesma afirmou ter sofrido maus-tratos durante boa parte de sua infância e juventude.
Aparentemente, ninguém havia compreendido o ato dela. Foi um choque; afinal de contas, João Paulo II era muito bem visto dentro e fora da Igreja. Após esse episódio, também, a vida artística dela não andou muito bem. Houve uma espécie de cancelamento por parte da indústria.
Busquei informações sobre como a Igreja se portou neste caso — afinal de contas, faltava um ano, a partir do episódio, para eu nascer. Não houve uma represália oficial direta por parte da Igreja, mas a reação pública foi muito dura.
Durante os anos 90 e 2000, casos de abuso sexual e outras violências em algumas igrejas e instituições na Irlanda começaram a tomar os noticiários. Lembro vagamente disso. Isso explica, também, por que eu ouvia tanto que “todo padre era pedófilo”.
Essas instituições eram voltadas para o cuidado de vulneráveis. Porém, durante quase um século, o cuidado se tornou um completo inferno na vida de quem passava por esses locais, que sofreram com autoritarismo, violência física e psicológica, maus-tratos, desprezo e negligência.
No momento em que parei para refletir sobre tudo isso, vários rostos me vieram à mente: conhecidos, amigos, parentes que possuem apenas essa imagem da Igreja, e o quanto isso os afastou de uma vida religiosa ou os levou para outro tipo de religiosidade.
Fiquei imaginando a dor das vítimas, o quanto sofreram caladas, o quanto foram desacreditadas e o quanto foram silenciadas num local onde deveria haver amor e acolhimento.
Com toda essa perspectiva, é totalmente compreensível o ato de O’Connor. O que mais poderia ser feito? Um coração estraçalhado pela dor, pela raiva, pela injustiça, calado e silenciado por tantos anos, precisava falar o mais alto possível. E assim foi feito.
No mesmo dia em que estava pesquisando sobre toda essa história, escutei um padre na homilia dizendo: “a roupa da religião veste muito bem em quem tem um mau coração”. E é a mais pura verdade.
A história nos mostra isso muito bem e, na verdade, não precisamos ir muito longe para vermos religiosos agindo farisaicamente em nossos dias. O que me fez refletir, também, se assim tenho vivido.
Quantas vezes agi de forma farisaica? Quantas vezes usei da religião para justificar algo injustificável? Quantas pessoas eu feri e afastei da Igreja, e talvez até mesmo de Deus, por conta do meu contra-testemunho, em um momento em que se esperava misericórdia?
É claro que nem tudo se resume apenas aos meus atos, mas tenho muita responsabilidade sobre isso. Todos nós, batizados, temos uma responsabilidade enorme perante outras almas. E isso é extremamente sério.
Quando esse senso de responsabilidade se torna justificativa para autoritarismo e abuso, não há nada da graça de Deus dentro de nós. Não importa se usamos um crucifixo pendurado no pescoço, escapulário ou uma cadeia de consagração. Não importa se tenho o contato de telefone do padre ou do bispo. Isso não significa ser cristão, não significa amor, não significa caminho de santificação.
O Salmo 35(36) diz assim:
O pecado sussurra ao ímpio, lá no fundo do seu coração;
o temor do Senhor, nosso Deus, não existe perante seus olhos.
Lisonjeia a si mesmo, pensando:
“Ninguém vê nem condena o meu crime!”
Traz na boca maldade e engano;
já não quer refletir e agir bem.
Arquiteta a maldade em seu leito,
nos caminhos errados insiste
e não quer afastar-se do mal.
O pecado tomou conta desses corações. Cumpriu seu objetivo. Além de corromper homens e mulheres de Deus, prejudicaram a vida de vulneráveis e pequeninos, mesmo sabendo a clara advertência de Nosso Senhor Jesus: “ai de vós que escandalizais os pequenos…”.
Muitos se acham superiores com sua religiosidade, mas esquecem que, além de ser matéria séria o cuidado com as almas, o apóstolo Paulo também nos instruiu que “quem está de pé, cuide para que não caia”.
“Meu filho, sê vigilante em todas as tuas obras e mostra-te prudente em tua conversação.
Não faças a ninguém o que para ti não desejas.
Dá de teu pão a quem tem fome, e de tuas vestes aos que estão despidos.
Dá de esmola todo o teu supérfluo.
Bendize o Senhor em todo tempo e pede-lhe que sejam retos os teus caminhos
e tenham êxito todos os teus passos e projetos.”
(Tb 4,14b-15a.16b.19a)
E isso, acho que já sabemos, é extremamente difícil. Ao menos falo por mim mesma.
Creio que, infelizmente, os líderes da Irlanda envolvidos nos escândalos deixaram sua vida de oração e de viver de forma sincera os sacramentos, e os usaram apenas como estética. E, se cada um de nós não cuidar, assim também o fará.
E não digo isso por já ter chegado lá, mas porque reconheço a dureza desse caminho. Mas temos conosco Aquele que o percorreu e o venceu, e temos sua Santa Mãe para nos auxiliar nessa peregrinação.
Depois de toda essa reflexão, apenas pedi a Deus para que Sinéad tenha encontrado consolo no fim de sua vida. Ao que parece, ela não rejeitou Deus, mas a Igreja como instituição, e se converteu ao islamismo. Infelizmente, ela também perdeu um filho adolescente.
Recentemente, o Papa Leão XIV encontrou uma das vítimas de uma instituição católica irlandesa, e a pessoa saiu do encontro se sentindo acolhida, amada e vista.
A Igreja é santa e pecadora, como ouvimos na Santa Missa: santa por sua doutrina e por seu divino Fundador; pecadora, pois seus membros estão sujeitos à mancha do pecado original.
Rezemos por todas essas vítimas e tenhamos sempre conosco o que o próprio Papa disse recentemente:
“é um escândalo quando aqueles que sofreram abusos não se sentem acolhidos e acompanhados na Igreja.”







Muito linda a reflexão. Algo que é muito fácil nós tentarmos colocar de lado para não sermos incomodados com essa realidade feia, mas que sempre será presente na igreja militante.
Tendo dito isto, também fico pensando em quão fácil é para as pessoas falarem de "trauma" ou "ofensa" da igreja hoje em dia. Para não ofender ninguém (e assim afastá-lo da igreja), temos que ficar pisando em ovos. Falar a verdade virou ofensa! Por isso, eu discordo de que temos responsabilidades com as outras pessoas, pois este peso é grande demais. Temos responsabilidade com Deus, e agindo conforme a vontade dele, amando as outras pessoas como ele ensinou, esse peso de ofender ou afastar as pessoas da igreja não é seu. Você fez conforme lhe foi possível. E que Deus use isso para a salvação ou danação daquela alma.